quarta-feira, 30 de junho de 2010

Serra

Pela íngreme subida

Um rebanho de cabras

Passa só por passar,

Sem nada que temer

E sem nada estranhar.



Rebanho do perdido

Pastor que no vale está,

Caído, deitado, jazendo,

A ver por ver

E a observar por reparar

Na serra dele por cima.



Como cego, um turista

Pelas giestas num carro

Passa para uma observação

Suposta por quem pensa

Que o está observando.



Subindo a serra,

O turista nada vê

Senão a sua triste

E desagradável realidade

De cego mais cego

Que os cegos de nascença.



O pastor, de olhar fito,

No azul do céu,

Sente como é feliz

Assim, sem preocupações,

Sem a mortífera cegueira

Que o turista disfarçar

Por todos os meios pretende.



Que azar o turista passar

E em parar não pensar:

Assim já não lhe posso

Expor o quão feliz ser

Que poderia o turista ser.



Agora que o turista passou,

Não resta nada senão

A mistura do giesteiro

Amarelo e da verdura

Do belo prado.



A felicidade do turista

Já não se concretizará,

Mas a pastorícia

Felicidade, parecida

Com a das cabras,

Permanece intacta.



E a Natureza

A sua felicidade

Afectada vê, sem

Se sentir confortável

Na sua nova condição.



Desejo, sinceramente,

Não ser como aquele

Maldito turista que

Pela Natureza

Passear finge.

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